Microcefalia afeta 282 crianças no Estado

Hildete Flora da Silva e o filho Kelvin (Foto: Kadidja Fernandes/ AT/ 02/11/2018)

Em 2015, um vírus pouco conhecido circulava pelo Brasil, através de um mosquito. Era o início de casos de zika, doença transmitida pelo Aedes Aegypti e que deixou o mundo todo em alerta: mulheres grávidas que foram picadas pelo mosquito começaram a dar à luz bebês com má-formação cerebral.

De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), 282 crianças nasceram com microcefalia (cabeça e cérebro menores que o normal) por causa do zika vírus no Espírito Santo, sendo 202 nascimentos só em 2016. E até hoje muitas mães lutam para os filhos receberem tratamento digno por parte do poder público.

Os dados foram obtidos pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Pesquisa feita pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) revela que grande parte das mães que tiveram bebês com microcefalia saíram da pobreza para a extrema pobreza. É que esses bebês demandam atenção integral e tratamento diferenciado, o que as fez abandonar o emprego.

Professora da Ufes, enfermeira e doutora em Saúde Coletiva, Paula Freitas acompanhou dezenas de mães com filhos nessa condição. Ela explicou que, de 2015 para cá, os pesquisadores observaram que o vírus não era responsável apenas pela microcefalia, mas por diversos outros problemas neurológicos.

“A Síndrome Congênita do Zika Vírus, como é chamada atualmente, não causa somente microcefalia, mas hidrocefalia e outros distúrbios neurológicos, como dificuldade de aprendizagem. Muitas crianças nasceram com a cabeça normal e só agora estão apresentando esses problemas”, alertou.

A especialista lembrou que muitas mães, por não conseguirem o acompanhamento adequado para os filhos, acabam abandonando o tratamento. “Essas crianças precisam ser corretamente estimuladas na idade de ouro, que vai de 0 a 3 anos, e isso não acontece”, disse.

“Como não existe uma rede, as mães procuram ajuda na Apae e Pestalozzi, mas não é suficiente. Elas acabam contando com a ajuda da comunidade e o poder público, que é quem deveria dar o amparo correto, não dá”, lamentou.

O neurologista Thiago Gusmão ressaltou que um novo surto de zika não está descartado. “Precisamos de políticas públicas de conscientização mais intensas. Quanto maior a educação, menor a proliferação do mosquito”, frisou.

Hildete Flora da Silva e o filho Kelvin (Foto: Kadidja Fernandes/ AT/ 02/11/2018)

Hildete Flora da Silva e o filho Kelvin (Foto: Kadidja Fernandes/ AT/ 02/11/2018)

“Mães de anjos”
A dona de casa Hildete Flora da Silva, 41, estava com três meses de gestação quando descobriu que tinha contraído zika e que o filho que esperava teria grande chance de nascer com microcefalia.

“Não foi uma notícia fácil, mas, graças a Deus, fui muito apoiada pelo meu marido. A microcefalia do Kelvin é acentuada. Aos 6 meses de gestação, ele parou de crescer e a cabeça nasceu proporcional ao corpinho”, contou.

Passado o susto, Hildete deixou o emprego como atendente para se dedicar exclusivamente ao filho. Ela faz parte de um grupo chamado “mães de anjos”, com várias famílias na mesma situação em todo o Brasil.

As mães se apoiam, trocam informações e experiências. “Nossos bebês são abençoados”, ressaltou Hildete.

Acompanhamento médico

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informou, em nota, que as gestantes realizam pré-natal e acompanhamento gestacional e até os 5 anos da criança nos municípios.

A orientação é que sejam encaminhadas para maternidades de alto risco mães com zika, onde podem receber suporte para a vida do bebê, como o Hospital das Clínicas e o Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves.

Segundo a Sesa, os bebês são encaminhados pelo município para acompanhamento com neuropediatra e, se necessário, para exames cardiológicos no Hospital Estadual Infantil de Vila Velha.
A continuidade do tratamento ocorre de acordo com a necessidade da criança frente ao quadro clínico apresentado, diz a nota.

Seminário na Ufes para discutir impactos

Os impactos da epidemia do zika no Espírito Santo e do desastre no Rio Doce, causado pelo rompimento da barragem de Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 km de Mariana, em Minas Gerais, no dia 5 de novembro de 2015, serão abordados em seminário que acontece esta semana na Ufes.

Entitulado “Zika vírus e Rio Doce: (in)visibilidades, silêncios e resistências, o ciclo de debates acontece terça-feira, no Cine Metrópolis, e na quarta, no Salão Rosa – Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE), ambos localizados no campus da universidade em Goiabeiras, Vitória.

Durante os dois dias de evento serão discutidos os impactos sociais do desastre.

O objetivo principal é fortalecer e ampliar o diálogo e ações entre a comunidade científica, entidades, comunidades e famílias que tiveram as suas vidas afetadas pelas duas emergências.
Serão realizadas palestras e mesas redondas e a exibição de documentários, entre eles “Todo Cuidado do Mundo”, de Ursula Dart. Fonte:Tribuna Online.

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