E agora, Paulo Hartung? Vai defender o governo Temer?

Se Hartung topar fazer a defesa do legado de Temer para ser candidato à Presidência, estaremos diante de uma guinada e tanto por parte do governador

Ensina Nicolau Maquiavel: “Um príncipe deve cuidar para nunca fazer aliança com um mais poderoso que ele, para ofender outros, senão quando a necessidade o obriga, (…) porque, vencendo, vira seu prisioneiro; e os príncipes devem fugir, tanto quanto podem, de estar à mercê de outros”. O governador Paulo Hartung (PMDB), um leitor voraz de história e ciência política, faria bem em refletir sobre a lição do autor de “O Príncipe” (1513), a partir da entrevista dada na quarta-feira (27) pelo ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB), à CBN.

A entrevista, na qual Padilha citou Hartung como presidenciável ao lado de Rodrigo Maia (DEM) e Henrique Meirelles (PSD), é uma rosa cheia de espinhos para o governador. Segundo Padilha, sete partidos que formam o núcleo duro do governo Temer decidiram se unificar para lançar um candidato à Presidência apoiado por todos. Só tem um “detalhezinho”: “A condição é que [o escolhido] defenda o legado do governo Temer”. Na mesma entrevista, o chefe da Casa Civil (na prática, quase um primeiro-ministro de Temer) destacou os nomes do presidente da Câmara e do ministro da Fazenda como principais apostas hoje. Como possível alternativa emersa dos quadros do PMDB, Padilha citou Hartung como um nome que vem sendo mencionado por parlamentares.

O problema é que o “presente de fim de ano” do braço direito de Temer para Hartung reserva uma pegadinha: a “defesa do legado de Temer” exigida como pré-requisito para a candidatura equivale à defesa incondicional de tudo o que o governo Temer representa. Não só as partes boas que se salvam (reformas modernizadoras, recuperação da economia etc.), mas também os seus aspectos mais podres, especialmente no campo ético (retrocessos no combate à corrupção) e social (atrasos na proteção ao meio ambiente, na proteção a trabalhadores etc.).

Ou seja, quem quiser ser candidato à Presidência pelo grupo na situação terá que assumir, como contrapartida, o apoio ao Pacote Temer completo. Não vai ter meio-termo, não vai dar para selecionar, tipo “ah, eu apoio as reformas, o trabalho da equipe de Meirelles, mas não tenho nada a ver com esse quadrilhão do PMDB revelado pela Lava Jato”. Nada disso.

O comprometimento terá que ser total, mesmo que isso signifique transigir em alguns princípios pessoais. Consequentemente, o candidato que se dispuser a isso não será um candidato independente, da renovação política, mas o candidato do governo Temer, com a marca indelével do peemedebista carimbada em sua chapa. Será que PH estará disposto a isso?

Se o fizer, para começo de conversa, estaremos diante de uma guinada e tanto por parte do governador. Até hoje, em todas as entrevistas e pronunciamentos desde a tramitação do processo de impeachment, Hartung nunca pôs a mão no fogo nem pelo peemedebista nem pelo governo do PMDB. Diga-se de passagem, nunca se posicionou a favor do impedimento de Dilma.

Sempre que pode, reitera, isso sim, seu apoio total à agenda reformista implementada por Temer e sua equipe econômica (privatizações, reformas trabalhista e da Previdência etc.). Mas o faz sempre de longe, mantendo uma “distância segura”, como a querer apoiar as ideias, mas não as pessoas que hoje ditam os rumos do país. Como Padilha deixou claro, essa separação asséptica, de quem não quer se sujar nem se misturar com os caciques nacionais, não interessa nada à cúpula do PMDB.

E agora, PH? Agora, é reler Maquiavel: “Nunca se foge a um inconveniente sem incorrer em outro; contudo, a prudência consiste em saber conhecer a qualidade dos inconvenientes e tomar o caminho menos pior como melhor”.

Me incluam fora dessa

Sobre a falta de identificação entre Hartung e o cacicado nacional do PMDB, não custa recordar que, desde 2016, o governador já manifestou inúmeras vezes a sua disposição em sair da sigla de Temer.

Hartung, há um ano

No dia 28 de dezembro de 2016 – há um ano, portanto –, em entrevista à CBN Vitória, ele foi assertivo sobre sua vontade de mudar de agremiação. “Quero ir para outro partido? Quero. Quero ir para um partido que tenha a ver com o meu pensamento político e ideológico.”

Muda ou não muda?

Em nova entrevista à CBN Vitória, esta no último dia 6 de novembro, Hartung carimbou: “Mudo de partido!”. Dias depois, em conversa com a coluna, remodelou a afirmação: “Não descarto ficar”.

Pequeno lobby

Conforme destacou Padilha, realmente há parlamentares e outros peemedebistas mencionando o nome de Hartung como presidenciável. No dia 9 de novembro, em São João da Barra (RJ), o governador do Rio, Pezão, disse sobre PH, em público: “É uma perda para o país se ele não vier candidato à Presidência”. Já no dia 14 de dezembro, em seminário do PMDB em Vitória, o ministro do Desenvolvimento Social, Osmar Terra, declarou: “O candidato que surge naturalmente é o melhor gestor do Brasil, que é o Paulo Hartung, com mais experiência”.

Cordialidade

Por outro lado, é preciso ponderar que as duas falas foram feitas na presença de Paulo Hartung.

Fardo pesado

Em entrevista ontem ao “Valor Econômico”, o analista político Celso Rocha de Barros respondeu sobre as chances de um candidato governista na eleição ao Planalto: “Muito difícil. (…) Se tiverem candidato, ele entra com um passivo muito grande para carregar Temer, a mala de Geddel, Jucá etc. durante a campanha”.

O que Temer representa

O entrevistador do “Valor” continua: candidatura Temer nem pensar? Rocha de Barros responde: “A não ser que só para defender o legado dele e num clima de total rebaixamento de expectativas da população. O pessoal teria que desistir do combate à corrupção. O cara que votar em Temer é o cara que desistiu da Lava Jato.”

O cacique de Juninho

Indagado se fica no PPS apesar dos altos e baixos com Luciano Rezende, Juninho responde assim: “Trocar de partido hoje equivale a trocar de cacique. Prefiro ficar com o meu, que pelo menos já conheço bem”.

Cena Política

Paulo Hartung conversava informalmente com jornalistas e comentou que César Colnago vai substituí-lo por alguns dias em janeiro. Será a 11ª passagem de cargo. Ao lado dele, a superintendente de Comunicação, Andréia Lopes, lembrou que na 10ª vez teve até comemoração. “Sim, teve bolinho de comemoração de 10 substituições. Vai completar 11 agora!”

Por Vitor Vogas

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