Ladrões usam patinetes para roubar pedestres e ciclistas em São Paulo

Agilidade do veículo, que atrai cada vez mais usuários nas ruas da capital paulista, é explorada para atacar vítimas. Acidentes também preocupam

O número de adeptos de patinetes em São Paulo está cada vez maior. Nos últimos meses, cresceu bastante a quantidade de pessoas rodando pelas ruas da cidade sobre o pequeno e ágil veículo, especialmente em bairros onde há grande quantidade de ciclovias e ciclofaixas.

No entanto, o equipamento, que pode chegar a 40 km/h, já despertou o interesse de ladrões e tem exigido dos usuários, de ciclistas e pedestres ainda mais atenção, exatamente pela facilidade de deslocamento que proporciona.

Habitantes e frequentadores da região de Pinheiros, na zona oeste da capital paulista, onde o patinete é bastante utilizado, têm reclamado de constantes ataques por assaltantes que usam o veículo para perseguir as vítimas.

Foi o caso da publicitária Daniela Andreucci, que já precisou se esquivar das abordagens de suspeitos por mais de uma vez enquanto pedalava. A última tentativa de roubo ocorreu na Vila Madalena, durante o carnaval deste ano.

“Parei no farol da Rua Aspicuelta com a Rua Harmonia. De repente, vi um grupo de uns dez moleques descendo e, antes mesmo que eu pudesse pensar, um deles já estava do meu lado com a mão na minha bike. Consegui esquivar e, enquanto estava descendo a rua, com medo e tremedeira nas pernas pelo susto, escutei alguém me chamando. Quando olhei para o lado, era uns dos garotos de patinete me perseguindo”, conta a publicitária.

Daniela também destacou o terror após um ataque, sem sucesso, praticado por três homens na ciclovia da Avenida Sumaré. A publicitária considerou as experiências vividas nos últimos meses traumatizantes e, por isso, decidiu abandonar o uso da bicicleta.

“Moro no bairro há 40 anos. Nunca vi isso acontecendo. Os patinetes motorizaram os maus intencionados. Eles estão usando para perseguir, bater de frente com as pessoas. Acho que, no geral, a situação está piorando. Mas, sem dúvida, o patinete deu uma vantagem para os ladrões”, desabafou.

A advogada Tania Brunhera Kowalski, que trabalha em um escritório na Avenida Brigadeiro Faria Lima, outro ponto onde há profusão de patinetes, conta que conseguiu livrar um estudante da abordagem de um grupo de meninos sobre patinetes.

“Estava saindo da lanchonete e vi um menino com uniforme correndo e tinha um patinete atrás dele. Como já conheço os meliantes, corri atrás do menino e o puxei para dentro da banca de jornal”, contou a advogada.

“O coitado tremia. Os meninos que estavam no patinete pararam e quiseram vir para cima de mim. Então, o dono da banca saiu e imediatamente juntou um monte de pessoas. Todas, inclusive eu, dissemos que eles já eram conhecidos ali e que não roubariam mais ninguém

Grupo conhecido

A advogada, que mora a menos de um quilômetro do trabalho, também em Pinheiros, afirma que o grupo responsável pela tentativa de assalto descrita já é conhecido por frequentadores da Avenida Faria Lima.

“Já vi vários assaltos com esses meninos. São sete, sendo que três não possuem mais que dez anos. O maior, na faixa de 13 anos, saiu correndo. O pequeno ainda ficou discutindo e xingando por um tempo, mas foi embora”, lembrou.

Tania disse ainda que os garotos não andam armados, mas admitiu que correu riscos ao reagir à ação criminosa, mas justificou a atitude pela indignação com a frequência dos assaltos na região.

“Na hora, a gente não pensa. Na verdade, vejo esses meninos assaltando diariamente. Acho que estava com sensação de injustiça. Por enquanto, esses meninos não estão armados e foi por isso que socorri o estudante”, complementou a advogada.

Acidentes também incomodam

Além do temor por assaltos, a nova febre dos patinetes também provocou outras dores de cabeça para o paulistano, como acidentes de trânsito, atropelamentos e quedas.

A médica veterinária sanitarista Andrea Basile de Faria teve o carro danificado depois que um menino bateu na traseira do veículo, também na Faria Lima, em um semáforo perto da estação Pinheiros do Metrô.

“Ouvi uma batida forte na traseira do meu carro, olhei pelo retrovisor e vi uma pessoa no chão. Não desci do carro, fiquei olhando o menino fugir com o patinete”, frisou.

Carro de veterinária foi danificado por patinete

Carro de veterinária foi danificado por patinete

Arquivo Pessoal

Para a médica, o acidente ocorrido em fevereiro deste ano foi provocado por outro garoto em atitude suspeita. “Creio que o menino não tenha alugado o patinete. Estava descalço. Vejo sempre meninos de rua utilizando estes patinetes nesta região”, disse.

Planejamento, regras de utilização e aplicação de multas são algumas práticas cobradas pela população para evitar os problemas causados por alguns usuários do novo modal de transporte.

“Ando a pé entre um cliente e outro na região do Itaim e Vila Olímpia. Está complicado atravessar as ruas por causa dos patinetes. Muitas pessoas não sabem usar”, complementou a veterinária sanitarista Andrea Basile de Faria.

Legislação falha

Para a secretária do Conseg (Conselho de Segurança) de Pinheiros, Ivana Queiroz, a moda dos patinetes agravou os problemas do bairro, sentimento revelado em mensagens trocadas por moradores em grupos fechados nas redes sociais.

“Eles alugam, provocam o delito, largam [o patinete] em qualquer lugar e vão embora. Largam tudo. Acho que problema do patinete, e da bike também, é a legislação. Não tem critérios. Está tudo livre, sem legislação. Um absurdo”, enfatizou.

Outro problema detectado pela representante da entidade que aborda questões de segurança dos moradores da região é a falta de cuidado por parte de alguns usuários ao deixar os equipamentos em espaços públicos.

“Não se pode deixar um patinete na calçada. Vem uma chuva, como aquela que parou São Paulo, roda patinete para todos os lados, bikes também. Não posso ver isso como uma atitude civilizada”, lamentou Ivana Queiroz.

Regulamentação em estudo

Por meio de nota, a Prefeitura de São Paulo explicou que constituiu, em janeiro passado, um grupo de trabalho para iniciar estudos e conduzir o processo de regulamentação do sistema de compartilhamento de patinetes elétricos na cidade.

A Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes tem mantido contato com prefeituras de cidades como Nova York e Paris para analisar experiências internacionais com o modal – que integra o que vem sendo chamado de micromobilidade –, além de mapear as potencialidades e adequar as normas e condutas às peculiaridades de São Paulo.

Ainda de acordo com a administração paulistana, 11 empresas interessadas em participar da elaboração das regras de utilização desse modal responderam a um chamamento público, no dia 18 de fevereiro, no qual tiveram que comprovar habilitação jurídica, regularidade fiscal e trabalhista e sua situação econômico-financeira.

Os interessados assinaram um termo de responsabilidade no qual se comprometem com a implantação de medidas de segurança e manutenção, além de garantir que a operação respeite os preceitos do Código de Trânsito Brasileiro, a resolução do Contran que disciplina a circulação de patinetes e as leis municipais sobre a ocupação do espaço público, especialmente as calçadas – ficou estabelecido que a velocidade máxima permitida para os patinetes é de 20 km/h nas ciclovias e 6 km/h nas calçadas.

Grin

Por opção estratégica, a Grin, empresa que detém os direitos para oferecer os equipamentos em São Paulo, não fornece informações sobre a quantidade de patinetes disponíveis na cidade, números de produtos furtados ou roubados, além das regiões onde o veículo é mais utilizado.

A startup informou que atua em São Paulo desde de agosto de 2018 e que a operação segue inalterada na cidade, de acordo exclusivamente com a regulamentação do Contran, visto que a regulação municipal se encontra em fase de elaboração.

Policiamento

Em relação às reclamações sobre falta de patrulhamento em ciclovias na região de Pinheiros, incluindo a Avenida Brigadeiro Faria Lima, a Polícia Militar de São Paulo informou que cada companhia faz seu plano de policiamento inteligente com base nas ocorrências registradas nas delegacias e demanda do telefone 190, principalmente.

Segundo a corporação, indicações da comunidade também são consideradas e, entre as estratégias para a segurança das ciclovias, o policiamento com emprego de bicicletas é um dos meios mais utilizados.

“Temos feito policiamento com o uso de bicicletas nas ciclovias com maior incidência de crimes”, complementou o major Emerson Massera, responsável pelo setor de Comunicação Social da PM paulista.

Fonte: R7

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