Navio com migrantes que estava bloqueado há semanas atraca em porto italiano; capitã pode ser presa

O navio humanitário da ONG alemã Sea-Watch, que estava bloqueado desde o dia 12 de junho próximo ao porto de Lampedusa, na Itália, atracou na madrugada deste sábado (29) na ilha. A embarcação estava proibida de entrar no país, porque levava 40 migrantes resgatados de águas da Líbia.

O “Sea-Watch 3” chegou ao porto de Lampedusa por volta de 1h30 da manhã do horário local (20h30 de sexta no horário de Brasília). Segundo o jornal alemão “Süddeutsche Zeitung”, um barco a motor da Guardia di Finanza, a polícia alfandegária e tributária italiana, tentou desviar e impedir a embarcação de atracar.

A capitã do navio da Sea-Watch, Carola Rackete. — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

A capitã do navio da Sea-Watch, Carola Rackete. — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

A capitã do navio, Carola Rackete, foi levada sob custódia ao chegar ao porto de Lampedusa. Algumas pessoas a aplaudiram. Outra gritou que ela deveria ser “algemada imediatamente”, segundo a agência de notícias Associated Press.

“Nós não estamos aliviados, estamos com raiva”, disse Rackete, segundo comunicado divulgado pela Sea-Watch. “Esse desembarque deveria ter sido feito há mais de duas semanas — e deveria ter sido coordenado, e não impedido, pelas autoridades”.

“Isso é desumano, inaceitável e, provavelmente, contra todas as constituições que essas pessoas alegam representar. É uma desgraça para ambas as palavras, “Europa” e “união”, como todos culparam os outros pelo bloqueio, enquanto nenhuma instituição europeia estava disposta a assumir responsabilidade — até que fui forçada a fazer isso eu mesma”, declarou.

Rackete pode ser presa e obrigada a pagar uma multa de até 50 mil euros (cerca de R$ 219 mil) — conforme um decreto aprovado neste mês pelo ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, que era contra desembarcar os migrantes.

“Solidariedade com mulheres e homens das forças policiais e da Guardia di Finanza em particular, visto que há algumas horas arriscaram a vida pela escolha criminal da Sea-Watch”, escreveu Salvini, que também é vice-primeiro-ministro da Itália, em sua página no Facebook, neste sábado (29).

Segundo ele, a ONG cometeu um ato criminal ao bater no barco da guarda enquanto atracava, gesto que o ministro do Interior chamou de “delinquente”.

“Estamos orgulhosos de nossa capitã, ela fez a coisa certa: seguiu a lei marítima e trouxe as pessoas para segurança. Em vez dela, Matteo Salvini deveria ser investigado por sequestro e violação do direito internacional”, afirmou o presidente da Sea-Watch, Johannes Bayer, no comunicado divulgado neste sábado (29).

O barco entrou em águas italianas na quarta-feira (26), já descumprindo determinações de Roma, e aguardava algum tipo de ajuda do governo italiano. No dia 12 de junho, o navio saiu de águas líbias com 53 migrantes. Até o dia 27, 13 já haviam sido desembarcados, segundo a Sea-Watch, por serem considerados vulneráveis, como os que estavam doentes.

Até o dia 27, 13 migrantes já haviam sido desembarcados, segundo a Sea-Watch, por serem considerados vulneráveis, como os que estavam doentes.  — Foto: Twitter/Sea-Watch

Até o dia 27, 13 migrantes já haviam sido desembarcados, segundo a Sea-Watch, por serem considerados vulneráveis, como os que estavam doentes. — Foto: Twitter/Sea-Watch

A Corte Europeia de Direitos Humanos havia decidido que a Itália não tinha obrigação de permitir que os migrantes desembarcassem do navio — mas estava obrigada a oferecer ajuda no mar.

Um dia antes de a embarcação chegar a Lampedusa, a Sea-Watch publicou, no Twitter, um vídeo em que Rackete afirmava não ter lido os comentários de Salvini sobre ela.

“Eu tenho mais de 60 pessoas com quem me preocupar [se referindo aos migrantes e à tripulação do navio] e Salvini pode entrar na fila”, disse Rackete.

Um dos migrantes a bordo do Sea-Watch 3, na quinta-feira, 27 de junho. — Foto: Ansa/Matteo Guidelli via AP

Um dos migrantes a bordo do Sea-Watch 3, na quinta-feira, 27 de junho. — Foto: Ansa/Matteo Guidelli via AP

Segundo o “Süddeutsche Zeitung”, não havia mais água suficiente a bordo e o lixo estava se acumulando. Havia, ainda, a preocupação com o estado psicológico dos migrantes, e a tripulação temia que alguns deles pudessem vir a tirar a própria vida.

“Hoje à tarde, o governo italiano instaurou uma investigação contra mim e informou que não vai nos ajudar a desembarcar os migrantes do navio”, afirmou a capitã em um segundo vídeo, publicado logo antes de direcionar o navio ao porto de Lampedusa. “Por isso, decidi por mim mesma atracar no porto”.

Acusações

A capitã do navio da Sea-Watch, Carola Rackete, ao ser levada sob custódia neste sábado (29). — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

A capitã do navio da Sea-Watch, Carola Rackete, ao ser levada sob custódia neste sábado (29). — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

Há alguns dias, uma campanha online foi lançada para cobrir os custos processuais e a multa com que a capitã é ameaçada. Nas primeiras 24 horas, segundo o jornal, mais de 200 mil euros foram arrecadados (cerca de R$ 877 mil).

O “Süddeutsche Zeitung” diz que Rackete pode ser processada com diversas acusações puníveis com anos de prisão, mas não determina quantos. Entre elas, segundo o jornal, estão a de auxílio à imigração ilegal, a de desrespeito à embarcação que tentou impedir o navio de entrar em águas italianas e a de colocar em risco o barco da polícia.

Depois que a capitã resgatou os migrantes da costa da Líbia, no dia 12 de junho, o país africano determinou que Trípoli, a capital, era um “lugar de segurança”, e pediu à embarcação que transportasse as pessoas de volta, segundo a Sea-Watch. Ainda de acordo com a ONG, Salvini também demandou a ela que seguisse as instruções líbias.

A capitã do navio da Sea-Watch, Carola Rackete, ao ser levada sob custódia neste sábado (29).  — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

A capitã do navio da Sea-Watch, Carola Rackete, ao ser levada sob custódia neste sábado (29). — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

A Comissão Europeia, que na quinta-feira (27) pediu à Itália que ajudasse a encontrar uma solução rápida para os migrantes, disse, em contrapartida, que “todos os navios que navegam sob a bandeira da União Europeia são obrigados a cumprir o direito internacional quando se trata de busca e salvamento”. O navio da Sea-Watch, que é alemã, navegava sob bandeira holandesa.

As regras europeias incluem a necessidade de levar as pessoas resgatadas para um local seguro. “A Comissão sempre afirmou que estas condições não existem atualmente na Líbia”, disse a comissão, de acordo com comunicado publicado no site da Sea-Watch.

E os migrantes?

Migrantes são vistos a bordo do navio bloqueado perto da ilha de Lampedusa nesta quarta-feira (26). — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

Migrantes são vistos a bordo do navio bloqueado perto da ilha de Lampedusa nesta quarta-feira (26). — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

Para eles, a odisseia aparentemente ainda não acabou, diz o “Süddeutsche Zeitung” — embora cinco países europeus tenham concordado em aceitá-los: Alemanha, França, Portugal, Luxemburgo e Finlândia.

Salvini estabeleceu a condição de que os migrantes fossem distribuídos para esses países sem que fossem registrados, antes, na Itália. O motivo: se forem, com fotos e tomada de impressões digitais, a Itália passa a ser o “primeiro país” em que pediram refúgio. Assim, conforme a Regulação de Dublin, eles poderiam ser devolvidos ao país a qualquer momento.

Aparentemente, entretanto, segundo o jornal, a União Europeia não queria permitir nenhuma exceção à regra, o que dá continuidade ao impasse.

Fonte: G1

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