Possível demissão de profissionais após novos ônibus com ar-condicionado e estruturado apenas com motorista foi tema de reunião de frente parlamentar nesta quinta (21)

Vandinho Leite (PSDB), que preside o colegiado, abriu os trabalhos falando da apreensão pela qual passa a categoria desde que o Governo do Estado anunciou a implantação de ônibus com ar-condicionado e sem a figura do cobrador. “Acredito que o governo precisa dialogar melhor pra deixar os pontos mais claros, muito do que foi apresentado continua um mar de incertezas”, disse.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários (Sindirodoviários) Jose Carlos Salles Cardoso ressaltou que os motoristas vão ficar sobrecarregados com a ausência de cobradores nos coletivos porque eles auxiliam em diversas situações. “Os profissionais trabalham estressados, têm problemas de saúde e isso vai ocasionar mais uma carga pesada”, afirmou.
Outros pontos destacados por Cardoso foram a falta de diálogo do Executivo com o sindicato, a possibilidade de crescimento de acidentes envolvendo os ônibus, os constantes assaltos aos coletivos, a necessidade de melhorias nas vias públicas e a dificuldade de cumprimento das promessas de recolocação dos profissionais no mercado de trabalho.
Quem também compareceu ao debate foi o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL) Paulo João Estausia. Ele citou o exemplo de Sorocaba (SP), que na década de 90 retirou os cobradores dos coletivos sob o pretexto de melhorar o transporte público e diminuir a tarifa, o que acabou não se concretizando.
De acordo com Estausia, a medida trouxe uma série de problemas como aumento em quase 25% do número de acidentes, ampliação da quantidade de pessoas que entravam sem pagar a passagem e até de crimes como assédio sexual e tráfico de drogas dentro dos ônibus.
Ele ainda explicou que este cenário só melhorou quando foi introduzida a figura do agente de bordo nos coletivos quase 10 anos depois. “Quando entrou o agente de maneira gradativa melhorou, a evasão de renda agora é quase zero. Os assédios morais e sexuais pararam”, assegurou.
Entre as funções apontadas pelo dirigente sindical para a profissão estão a de auxiliar pessoas com deficiência e idosos, orientar os passageiros, dar informações, limpar o veículo e informar o motorista de qualquer incidente para ele tomar uma providência. “Provamos que não funciona o transporte coletivo 100% sem cobradores”, frisou.
Segundo Estausia dados da CNTTL indicam aumento de episódios de suicídio na categoria dos rodoviários nos últimos dois anos. “Superou pela primeira vez os casos na polícia militar. Foi um levantamento da nossa confederação. Será que vale a pena continuar arrochando as condições dos trabalhadores?”, indagou.
Para o procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho no Espírito Santo (MPT-ES) Valério Soares Heringer é preciso ter em mente que o transporte rodoviário é uma atividade regulada, um serviço público e que não é passível ocorrer de paralisação total. Além disso, que as concessionárias quando apresentam o valor da tarifa levam em conta na planilha de custos a presença dos cobradores.
Como sugestão para os rodoviários Heringer falou que era necessário criar uma mesa de negociação permanente com as empresas e o governo, o que poderia ocorrer com a mediação do MPT, pois já existe um núcleo na instituição para isso.
“As discussões da categoria têm se dado no calor de uma greve, que não é o melhor ambiente para se debater questões tão importantes, pois há uma pressão da opinião pública (contra os trabalhadores)”, lembrou.
Segundo o Delegado Lorenzo Pazolini (sem partido), a ausência do diálogo é a marca do governo de Renato Casagrande (PSB). “Os professores foram massacrados essa semana, tentamos por meio de emendas melhorar (o projeto) e o governo não aceitou. Foram retirados vários direitos”, garantiu.
O parlamentar classificou como um “engodo” a implantação dos ônibus com refrigeração e falou que a Casa estava com a Frente corrigindo o equívoco do Executivo de não ouvir a categoria sobre o tema. Ele apoiou a ideia de Heringer de criar um canal permanente de negociação entre os rodoviários, as empresas e o Estado.
Ao final dos debates Vandinho afirmou que os deputados iriam trabalhar para a implementação da câmara de negociação, inclusive, participando oficialmente de possíveis acordos. Ele também prometeu trazer o secretário de Estado de Mobilidade e Infraestrutura Fábio Damasceno em uma reunião da Frente. “Precisa vir aqui responder as perguntas e esclarecer à sociedade”, concluiu.
Além dos citados anteriormente, também participaram do encontro a presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT-ES) Clemilde Cortes Pereira, o gerente de atendimento da Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo (Ceturb) Gilmar Pimenta, dirigentes sindicais e motoristas e cobradores do Sistema Transcol.











