‘Achei que ela sobreviveria’, diz mãe de jovem morta por homofóbico

Um mês e meio após a morte da filha Emilly Martins Pereira, de 21 anos, a técnica de enfermagem Márcia Maria Martins carrega um semblante triste. Com a voz baixa, os olhos marejados, ela contou que a formatura da filha seria no próximo dia 23. A jovem teria a mesma profissão da mãe.

Para amenizar a saudade da filha, Márcia cuida da cadela Suzy, que era de Emilly e ficou aos seus cuidados. A mãe afirma ainda que acredita que o crime foi premeditado pelo vizinho, Roberto Luis Pavani, que está preso acusado pelo duplo homicídio.

ENTREVISTA

1) Como foi no dia do crime?

A Emilly estava na varanda. Não sei se ela ligou para a Meiry ou se a Meiry que ligou para ela, mas em seguida minha filha saiu e foi na esquina conversar com ela. Era por volta de 23 horas. Eu estava dormindo na minha casa, na época eu morava no bairro Interlagos. Até que um sobrinho me ligou e disse: ‘Estão falando que mataram a Emilly’. Fiquei desesperada, liguei no Hospital Geral de Linhares, pois eu trabalhava lá, mas minha filha não tinha sido levada a esse hospital. Pouco depois uma amiga do Hospital Rio Doce me ligou e contou que a Emilly estava lá. Fui correndo ao hospital.

2) E como foi quando a senhora encontrou sua filha no hospital?

Perguntei a ela quem tinha feito aquilo, mas ela estava em choque, já não conseguia falar direito. Eu acredito que não houve discussão, ele disparou pelas costas delas. Ele estava observando as duas há algum tempo, acredito que premeditou tudo. É nossa rua onde tudo aconteceu, não há perigo aqui. E minha filha só falava: ‘Mãe, foi um senhor’. Eu só pedia a Deus que a salvasse, achei que ela fosse sobreviver. Foi só um tiro, já vi gente com 10 tiros sobreviver. Mas minha filha não sobreviveu a um tiro e a 30 minutos de cirurgia.

3) Como é saber que o acusado está preso?

É um pouco satisfatório saber que uma pessoa como essa está longe. Ele é um risco para a sociedade, a gente espera que vá a júri popular. A Emilly estava terminando o curso técnico de Enfermagem, teria a mesma profissão que eu. A formatura da turma será no dia 23. Ela ia trabalhar na saúde para salvar vidas, mas a vida dela foi interrompida. Alivia um pouco saber que o assassino está preso. Não vai trazer minha filha de volta, mas vai amenizar a dor.

4) Como é saber que sua filha foi assassinada por intolerância, por homofobia?

É triste. O outro se incomoda com a opção dos outros, com a vida dos outros. Mas creio que Deus é justo e fiel e vai amenizar a dor da gente.

5) A senhora sabia que a Emilly era homossexual?

Ela tinha essa opção, só há um mês antes do crime ela contou que tinha conhecido a Meiry. Eu perguntei: ‘Ela trabalha? É uma pessoa de bem?’. Claro que eu aceitava minha filha. Você como mãe educa os filhos e não sabe que rumos eles vão tomar, mas eles não deixam de ser nossos filhos e a gente não deixa de ser mãe. A Emilly morreu de forma violenta, a gente vê essas notícias e não imagina que em Linhares, na nossa rua, aconteceria isso.

6) O que tem feito para amenizar a dor?

No próximo dia 18, um sábado, vamos fazer uma passeata às 10 horas, no Centro. Mas não é para lutar só pela minha filha, mas por toda a população, para amenizar esse medo que a gente vive hoje, essa intolerância, essa violência.

7) Como era o acusado como vizinho?

Uma pessoa de bem, ele criou os filhos aqui, era um bom vizinho. De uns tempos para cá a vizinhança vinha reclamando, dizendo que ele estava agressivo, intolerante por causa de sons, de crianças. Eu não tinha visto antes, vi só agora, e da pior forma possível. Espero um júri popular, que ele venha e fique ali para pensar no que fez,

8) A senhora acha que o mundo está mais intolerante?

Minha filha nunca tinha sofrido preconceito, então essa intolerância assusta. Minha saúde está abalada depois do crime, até saí de um emprego, preciso cuidar de mim. Até a Suzy (a cachorra) ficou triste no início, não queria nem comer. Ela é uma lembrança da minha filha.

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