Capixabas trabalham mais e ganham menos

Em um momento onde o índice de desemprego ainda é alto, o salário médio recebido está menor e as pessoas trabalhando mais. No Estado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), no segundo semestre deste ano, o trabalhador capixaba recebeu em média R$ 1.992 por mês. O valor é 2,6% menor que o do primeiro trimestre, que era de R$ 2.045. Essa é a maior queda percentual desde 2012.

Enquanto o salário fica menor nesse período, a quantidade de horas trabalhadas chegou a subir em até 13% para quem tem a carga horária entre entre 15 e 39 horas semanais. Esse número representa um aumento de 42 mil pessoas nessa faixa.

De acordo com o pesquisador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), Bruno Ottoni, a quantidade de horas trabalhadas em ascensão é um precedente de volta de crescimento econômico.

“Na crise as empresas precisam realizar a redução do regime de horas trabalhadas por que não têm demanda de mercado e para que não demita o trabalhador. Quando a atividade econômica começa a voltar a tendência é que as empresas voltem a aumentar a quantidade de horas dos trabalhadores que estão ociosos e, quando eles chegarem na capacidade máxima da carga horária, começar a contratar novos trabalhadores”, comentou.

Na Pnad, segundo o pesquisador, está sendo observado o aumento da margem de horas trabalhadas, o que representa, apesar de lenta e gradual, uma recuperação.

O número de pessoas que trabalham entre 40 e 44 horas semanais aumentou 4,1% na relação entre o ptimeiro e o segundo trimestre do ano. O valor passou de 1,041 milhão para 1,083 milhão, esse foi o maior aumento percentual desde o quarto trimestre de 2015.

Além disso cresceu em 12,8% o número de pessoas que trabalham entre 15 e 39 horas semanalmente. De 351 mil no primeiro trimestre o número passou para 396 mil no segundo do ano. Esse também é o maior percentual desde o terceiro semestre de 2015.

Para se manterem as empresas precisaram se adaptar a nova realidade do mercado, é o que explica a diretora técnica de uma empresas que presta consultoria especializada em soluções com pessoas, Jaciara Pinheiro.

“Esse cenário está refletindo um pouco da realidade da crise. Com ela, as empresas também acabaram fazendo opções de cortarem salários maiores e cortar até uma área toda. Vemos que as empresas de uma forma geral busca m nesse momento de sobrevivência buscar manter os melhores salário. Com a saída de funcionários a tendência é que tenha uma única pessoa pegue o processo do começo ao fim e isso aumente a quantidade de trabalho executada por ela”, explicou.

Já segundo o consultor de empresas Durval Vieira de Freitas, as empresas estão mantendo algumas pessoas ociosas porque a mão de obra boa é difícil encontrar no mercado. “As empresas de um modo geral estão com as margens próximas a zero ou tendo prejuízo, sendo que para você competir no mercado tem que reduzir os preços”.

REMUNERAÇÃO INFERIOR PARA VOLTAR AO MERCADO

Às vezes é preciso se reinventar para conseguir voltar ao mercado de trabalho. Com a crise, o número de desempregados aumentou e esses profissionais agora batalham pela recolocação.

“Acontecem três etapas. Na primeira, a pessoa tenta um salário menor dentro da sua área de atuação e cargo, esse período de busca leva de seis meses a um ano. Depois, ela passa a aceitar um cargo menor dentro da área de atuação. Se não conseguir, tenta migrar para outras áreas que exijam menos experiência ou técnica”, explicou a gerente de RH da Luandre, Andrea Tenuta.

Ainda segundo Andrea, têm pessoas com fôlego financeiro para aguentar por mais tempo o desemprego, mas aceita uma vaga com menos vantagens para não ficar fora do mercado. “Isso acontece em todos os níveis de escolaridade”, comentou acrecentando que é mais comum a pessoa aceitar atuar em outros cargos por estar fragilizada e precisar pagar as contas.

A estudante de gastronomia Maria Eduarda Silveira, 19 anos, ficou dois anos desempregada. Ela trabalhava em uma empresa de contabilidade como aprendiz enquanto cursava o técnico integrado em administração. Depois de um ano, como a empresa não teve como contratá-la Maria Eduarda foi dispensada.

“Eu entrei em depressão por ter ficado parada e não ter dinheiro para comprar coisas básicas. Eu gosto de ser independente, não queria sair porque não tinha dinheiro e não ia pedir para os pais. Foi um período bem complicado”, lembrou.

Mas no começo do ano, ela recebeu um convite da tia, que era enfermeira e migrou para a área da confeitaria. Começou a fazer um curso de gastronomia e se apaixonou. “Eu entrei para aliviar a cabeça e acabou virando uma profissão”, revelou. Desde então, faz bolos de pote para vender.

O caso da Maria Eduarda é apenas entre tantas outras histórias de recomeço. Por isso, Andrea destaca que os profissionais têm que estar o tempo inteiro se reinventando e estudando para conquistar seu espaço.

Mas quem aceita um salário ou cargo menor precisa ter paciência para não se frustar. Segundo a psicóloga e diretora da Psico Store, Martha Zouain, a preocupação é quando o profissional aceita algo menor do que precisa e já entrar no trabalho insatisfeito. “Se ela aceitar um salário menor tem que ter a clareza de que pode crescer ali dentro. Entrar por entrar sem ter perspectiva é ruim”, disse.

“O mínimo que o profissional vai aceitar é o valor que ele sobreviva naquele período, é preciso ter critério. É importante o profissional perceber que o mercado mudou e Ele não vai voltar ao mercado com o mesmo salário recebido”, acrescentou Martha.

Andrea pondera que “cada caso é um caso. Mas é melhor estar empregado e conquistar o espaço dentro da empresa do que estar desempregado”

TRABALHADORES MAIS PREJUDICADOS

Profissionais com níveis de estudo mais elevado tiveram menos problema para encontrar um novo emprego, do que aqueles que tem no máximo o ensino médio incompleto, é o que explicou o coordenador geral substituto de Cadastro, Identificação Profissional e Estudos do Observatório do Trabalho do Ministério do Trabalho, Felipe Vella Pateo.

Segundo ele, de maneira geral o Estado teve três meses negativos com relação a geração de postos de trabalho no setor agrícola, devido a sazonalidade da área. Esses postos de trabalho normalmente são ocupados por pessoas com nível de escolaridade mais baixo.

“Temos visto uma tendência do crescimento de postos ligados ao nível superior, enquanto os de níveis menores são os que mais demitiram. Já as ocupações que mais contrataram no Estado são de ensino médio e técnico”, analisou.

O consultor de empresas Durval Vieira de Freitas concorda com Pateo e complementa: “o salário de quem estudou até o ensino médio incompleto caiu. Por outro lado, a média salarial de quem tem o médio completo para cima acabou tendo um aumento com relação aos últimos ano”.

Algumas ocupações tiveram um desempenho pior do que os demais nos últimos meses. De acordo com Pateo a função de auxiliar administrativo é uma das ocupações que mais demitiram e o resultado de indústria, vinculado ao setor de mecânica e manutenção de máquinas também teve um baixo desempenho. “Essa variação negativa destoa em relação a dos outros meses, mesmo a área de serviços e comércio foi positiva.”

O coordenador também revelou que os salários dos trabalhadores admitidos no Espírito Santo estão abaixo da média nacional. Segundo o Caged a média de salários no Brasil é de R$ 1.478,52, no Estado o valor cai para R$ 1.378,07.

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