Empresas aplicam teste de caráter para examinar funcionários

Ação identifica características nocivas ao negócio

Práticas como suborno e fofoca são combatidas pelas empresas
Foto: Ilustração | Arabson

Num momento em que o país atravessa uma grave crise ética, com grandes companhias envolvidas em esquemas de corrupção, o mundo corporativo está mais do que nunca atento ao comportamento dos seus funcionários. Até teste de caráter está sendo usado pelas empresas para identificar características nocivas aos negócios, que podem causar não só prejuízos financeiros, mas também danos irreparáveis à imagem.

Cada vez mais sofisticadas, as técnicas de avaliação são capazes de detectar desde a capacidade de um colaborador resistir a pressões a até situações de conflitos éticos, como propensão de praticar assédio moral ou sexual, a aceitar suborno, a roubar e a fazer fofoca.

Um novo teste desenvolvido por especialistas em Recursos Humanos, Administração e Direito para avaliar caráter passou a ser usado por empresas para evitar que casos de fraude, corrupção e assédio cheguem até o ambiente de trabalho.

O modelo é constituído de um questionário com perguntas que analisam a intensidade de manifestação de certos comportamentos e a relação que o indivíduo tem com o risco a que está vulnerável, por exemplo, à oferta de presentes e ao uso de informações confidenciais, bem como seu desenvolvimento quando é confrontado com dilemas éticos.

A psicóloga especialista em Compliance e sócia da S2 Consultoria, Alessandra Costa, lembra que a Lei Anticorrupção determina que as empresas façam monitoramento dos profissionais e processos seletivos mais apurados. “O teste Potencial de Integridade Resiliente ajuda a perceber se o indivíduo está ou não alinhado com os valores e a cultura da empresa. A ferramenta pode ser aplicada em futuros colaboradores e até nos que já estão trabalhando”, explica.

Ela lembra que, certa vez, o teste indicou que um executivo tinha tendência a praticar o assédio sexual. “Para ele, sair com colegas de trabalho não era problema e ele se via como alguém persistente”, diz.

SEM RÓTULOS

A psicóloga e diretora da Psicoespaço, Marianne Limonge, explica que o teste não rotula um profissional, mas possibilita que a empresa utilize outras técnicas para alinhar a ética do colaborador com os valores da companhia. “A proposta do teste não é olhar o passado da pessoa ou classificá-la entre ética e não ética, mas entender como a pessoa tende a lidar com dilemas éticos”, afirma Marianne.

As respostas são coletadas em três formatos: múltipla escolha, dissertativas e relatos em vídeos, com curto tempo de resposta. “Tudo é avaliado por recrutadores que observam a coerência entre as linguagens verbal e corporal”, explica.

A gerente de RH da Localiza, Adriana Baracho, conta que há um ano o teste integra o processo de seleção da companhia.

Para ela, o comportamento ético é um dos pilares da empresa e, por isso, precisava de uma ferramenta que desse respaldo na hora de contratar novos funcionários. Caso o resultado do teste não recomende a contratação, a equipe de recrutamento faz uma verificação aprofundada.

“Aceitar presentes de um fornecedor pode ser inocente, por exemplo, mas não é adequado. Pequenos detalhes fazem a diferença”.

O gerente de RH da ArcelorMital Cariacica, Herik Pires Marques, afirma que na siderúrgica a seleção é feita em várias fases, com entrevistas técnicas e testes que detectam o perfil e as habilidades do candidato. Depois de selecionado, é feito um treinamento de integração com o objetivo de mostrar o código de ética, política de convivência, entre outros aspectos.

Na Vale, o ouvidor-geral Alexandre de Aquino destaca que há duas áreas que tratam diretamente do tema de ética e integridade corporativa. A Ouvidoria recebe denúncias sobre violações ao Código de Ética, enquanto que a área de Integridade Corporativa cuida do funcionamento, aplicação e aprimoramento do Programa Global Anticorrupção.

Cientista político e professor da UVV, Paulo Edgar Resende explica que o processo ético no Brasil passa por um momento de transição. “Há um sentimento de que o respeito ao outro não é tão importante quanto os próprios interesses. Mas vejo que a falta de ética é um elemento cultural, que está se modificando aos poucos”, diz.

Ele destaca ainda que o incômodo provocado por escândalos de corrupção de políticos e empresários tende a provocar diversos questionamentos, pois fica mais próximo do indivíduo.

Líderes de conduta inapropriada geram funcionários insatisfeitos

O fundador do Uber, Travis Kalanick, renunciou ao cargo após pressão dos investidores. Contra ele, pesavam acusações de assédio sexual, discriminação no trabalho, entre outras denúncias. Além do principal executivo da empresa, outros membros da diretoria praticavam a mesma conduta e também não resistiram à pressão e deixaram seus cargos. Outro caso bastante conhecido na relação de trabalho é o do criador da Apple, Steve Jobs, que não sabia tratar seus funcionários e os levava ao esgotamento por conta de suas críticas.

O comportamento desses dois gênios da tecnologia demonstra que o mercado já não aceita mais um líder que não sabe tratar bem os colaboradores. Estudos apontam que uma liderança com esse perfil gera funcionários desmotivados e discussões no ambiente de trabalho.

A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, seccional Espírito Santo (ABRH–ES), Kátia Vasconcelos, destaca que o diferencial de mercado hoje é o comportamento do indivíduo. Vários especialistas são unânimes em dizer que um profissional é contratado por quesitos técnicos e demitidos por sua conduta. “O mundo corporativo busca relações mais produtivas e saudáveis, além de pessoas que tenham a capacidade de cuidar das pessoas com o mesmo carinho que cuidam das coisas. Se você é referência em determinada área, nada vai adiantar se você não sabe lidar com o outro”, diz.

O consultor Eduardo Ferraz lembra que atitudes grosseiras e machismo sempre ocorreram dentro das empresas, mas o diferencial de agora é a facilidade de expor determinadas situações. “Qualquer tipo de abuso passou a ser inaceitável porque o que impera agora é o politicamente correto. O Steve Jobs expulsava pessoas da sala aos gritos e até jogava computadores nos outros. O resultado foi seu afastamento. Hoje, não se aceita mais isso”, avalia.

Já o mestre em Neuropsicologia e Liderança Educadora, Eduardo Shinyashiki, acredita que a forma de se comunicar é essencial para uma boa convivência nas organizações. Ele lembra que, com a crise, as equipes diminuíram, acelerando o nível emocional de quem ficou.

“A pressão e o nível de autocrítica são grandes. Com isso, as comunicações se tornaram rápidas e superficiais, gerando, muitas vezes, conflitos que ficam focados no problema e não na solução. As palavras e a expressão corporal contam muito. Às vezes, se usa palavras certas no tom errado. Para melhorar as relações, é essencial ter domínio das emoções, o que chamamos de inteligência emocional”, aponta.

Piores chefes

Autoritário

A filosofia dele é: “Manda quem pode e obedece que tem juízo”. Ele diz que é aberto a ouvir opiniões, mas o que ele quer mesmo é que você faça tudo do jeito dele. O melhor é evitá-lo durante

seus surtos.

Acusador

Aquele que, quando surge um problema, ao invés de assumir a responsabilidade como parte da equipe, começa a apontar e dizer quem são os culpados. É sempre bom você ter em mãos relatórios e arquivos de suas atividades.

Sabe tudo

Sempre com um sorriso largo, nunca tem dúvidas e raramente se engana. Apesar de ser competente, a prepotência serve apenas para esconder sua insegurança. A única solução é o diálogo e ir tentando se impor, a medida em que o relacionamento se desenvolve.

Bipolar

É aquele que um dia é amigo de todo mundo, compreensivo e amável, e no outro vira um pequeno monstro. O melhor é evitar confrontos desnecessários e não fazer nenhum tipo de brincadeira antes de descobrir com que humor ele acordou.

Fonte: Portal Administração

Fonte: Gazeta Online

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